segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Crônica: Obrigações Sociais

Obrigações Sociais

Balançando em meio aos movimentos abruptos do ônibus, Henrique tenta manter-se acordado para não perder seu ponto, amparado pela música agitada em seus ouvidos. Este se tornaram seus melhores amigos, especialmente depois de cansar-se dos protocolos sociais, das formalidades superficiais e das conversas sem verdadeiro interesse com pessoas que na verdade não significavam nada em sua vida. Consumido por pensamentos distantes, em mundos inexistentes, ele contempla com olhar vazio a paisagem que passa de forma frenética pela janela do veículo. A sensação do crepúsculo parece intensificar a melancolia de seu viver, tão vazio e solitário. Ainda que
pareça irônico falar de solidão dentro de um ônibus repleto de pessoas, mas para ele essas não passam de peças de mobília animadas, indiferentes, frias e insignificantes. A insignificância de vidas que não constituíam em sua própria qualquer valor, seres que simplesmente respiravam e na verdade não se conectam a ele de qualquer forma. Abraçado a sua mochila ele sente seu ombro se chocar mais uma vez contra a lateral do ônibus, não sabe se a ansiedade que sente é referente a ideia e voltar para o conforto de seu teto ou a aversão de faze-lo. A expectação do lar solitário e mal arrumado, do macarrão instantâneo esquentado para preencher o vazio da fome noturna e da companhia do felino que co-habitava o apartamento. Sim pois dizer-se dono do felino era uma utopia, ele era com certeza a criatura mais sincera com que já convivera, pois não escondia suas intenções e interesses, suas insatisfações e medos. Essa sinceridade, tão desprezada entre os humanos fazia-o o único e verdadeiro amigo a quem ele podia se apegar depois de um dia de trabalho, cercado de pessoas que lhe perguntavam "tudo bem?" por obrigação, lhe lançavam sorrisos imerecidos e trocavam opiniões que não lhes foram pedidas sobre assuntos que não despertavam qualquer interesse. Talvez essa hipocrisia social fizesse da expectativa do "lar" uma dualidade de melancolia e refrigério, lá ele poderia com prazer privar-se das obrigações sociais, ser quer realmente queria ser, por outro lado ao sentar-se em frente ao seu computador não resistiria a tentação de conectar-se as redes sociais. Ali voltaria a praticar a usual hipocrisia, perguntaria sobre a rotina de pessoas com as quais na verdade não se importava, leria e escreveria opiniões sobre assuntos sobre os quais na verdade não quer escrever. Atado pelas correntes das obrigações sociais, demonstraria ter o que na verdade não tem e ser quem na verdade não é.

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