quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Crônica: Dona Inspiração


Dona Inspiração


Henrique espreguiça-se fazendo a cadeira reclinar-se para trás e ranger, em seguida ajeita os óculos sob o nariz, seus olhos fitam a pagina em branco projetada no monitor de seu notebook. Ele instintivamente apanha a caneca, que esta ao lado do computador, mas ao ergue-la percebe, pelo peso do objeto, que ela esta vazia, seu precioso café acabou e isso arranca do homem um suspiro de desgosto. Mordendo a parte inferior do lábio, em sinal de evidente ansiedade, ele corre os olhos pelo quarto, pela bagunça das cobertas e travesseiros na cama, pelos sapatos jogados pelo chão, pelas portas mal fechadas do guarda roupas e pelos livros mal alocados nos níveis da estante. Sua mente
não parece encontrar o que precisa, a droga que alimenta suas fantasias, a sensação que de tanta personalidade parece humanizar-se em formas femininas, formas de uma mulher de temperamento forte e de ideias independentes, do tipo que não faz acontecer quando não quer. Inspiração é o seu nome, mulher tinhosa que teima em não querer ajudar aqueles que dela necessitam, mulher de lua que ninguém sabe quando quer trabalhar. Depois de alguns minutos ele desisti, abaixa a tela do dispositivo, levanta-se da cadeira e num salto joga-se sobre a cama em meio a bagunça. Quando Morpheu parece abrir-lhe as portas de seu mundo, subitamente um estalo, a dama indômita resolveu visita-lo. Sem escolha Henrique, num impulso, levanta-se desajeitado da cama, puxa a cadeira e reabre o notebook, ainda que contrariado inclina-se na direção do monitor e estende seus dedos sobre o teclado, precisa aproveitar a companhia da dama, pois nunca se sabe quando ela vai partir, ou melhor, quando vai voltar.


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