sexta-feira, 26 de junho de 2015

Um mundo carente de dialética

Mundo de extremos que despreza a Dialética


Num mundo de compartilhamentos e fácil acesso a informação o extremismo de informação se torna uma prática comum, a moderação e tolerância ficam em segundo plano, dando lugar as agressões de verdadeiros xiitas virtuais. 


A existência humana é permeada por questionamentos, inquietações e sobretudo discussões, fruto de discordâncias, naturais quando se confronta diferentes pontos de vista, conviver com outros seres humanos é uma rotina de contraposições. Por mais que muitos encarem a discussão como algo negativo, ela é na verdade um dos elementos responsáveis pela evolução do pensamento humano. Dentro deste contexto é interessante perceber que existe um elemento fundamental nesta dinâmica de discussões, que permite que de forma racional venhamos a aprender com aqueles que discordam de nós e ao mesmo tempo também agreguemos ao outro valor: a dialética. 

Segundo Foulquié(apud Souza[1]) a palavra dialética tem sua raiz etimológica no substantivo grego "dialectike", cuja tradução é: "a arte da discussão".

Esse ramo filosófico tem suas origens antes mesmo da Academia de Sócrates(gênese da filosofia ocidental) enraizada no século VI a.C. com Heráclito. Este filósofo concebia as ideias como as águas de um rio, nunca sendo as mesmas, como ilustra seu celebre pensamento:
"Tudo muda tão rapidamente que não é possível banhar-se duas vezes num mesmo rio"
Logo era inconcebível para Heráclito a ideia de um pensamento estático e imutável. Estas características são encontradas na obra de Platão e em toda a filosofia que o sucedeu. Para Sócrates a dialética caracterizava instrumento de busca pela verdade, verdade esta presente em nossas almas, incutida antes de nossa existência carnal, no imaterial "mundo das ideias". Este conceito ganhou novas perspectivas com Aristóteles e seu contraponto, fundamentando-se na experimentação, na qual não nascemos com o conhecimento, mas o adquirimos de forma empírica. Nesta ideia as discussões e diversidade de opiniões tornam-se ainda mais importantes, pois pela experimentação, ou seja a sobreposição de ideias, se percebe a verdade pelo embate lógico e não por lembranças de uma vida pré-natalina.

É interessante perceber como a dialética permeou-se pela ciência, como ressalta Suarte Junior[2]:
"O conhecimento científico se apresenta historicamente então como uma dialética entre o processo indutivo e o processo dedutivo"
O principio fundamental na "Arte da discussão" reside na argumentação lógica, ou seja, não só falar, mas também no ouvir os argumentos do outro. Infelizmente o que se contempla nas mídias sociais na contemporaneidade é o apogeu de xiitas digitais, intolerantes e reativos cuja unica prática é o debate irracional. Não se busca a construção do conhecimento ou a defesa sadia de ideias, apenas o ataque indiscriminado a toda e qualquer ideologia dissidente. Isso impede o sadio processo de sobreposição de ideias, pelo qual se abstraem verdades até mesmo de opiniões diferentes da sua. Cria-se uma venda de competitividade que impede a percepção de que o outro pode ter em seu pensamento conceitos verdadeiros. 

Mas qual seria a raiz da intolerância? Seriam os ambientes digitais campo fértil a superficialidade e a defesa cega e insana de ideologias? Que nutrientes malignos este meio-ambiente digital proporciona aos que nele abitam? Seria a mascara do falso anonimato o explosivo combustível? Ou seria a utópica percepção do mundo digital com um universo paralelo a fonte progenitora deste mundo sem dialética?

Creio que a resposta resida no fato de esquecermo-nos de que estamos lidando com outros seres humanos. A impessoalidade da imersão no ciberespaço muitas vezes nos faz encarar o outro como uma encarnação de um esteriótipo, antes de tudo por que não temos na maioria das vezes a oportunidade de verdadeiramente conhece-lo. E isso não aplica-se apenas ao outro, esquecemo-nos da nossa própria humanidade, encarnamos ideais e pensamentos, tornando-nos cavaleiros fanáticos em uma cruzada. Esse comportamento é classificado por Spadaro[3] como uma esquizofrenia digital, uma alienação da realidade, concebendo a rede como uma dimensão isolada daquilo que entendido como real. Esta percepção distorcida dá margem a comportamentos que no "mundo real" seriam evitados, mas a "miopia virtual", se assim pode-se chamar, transforma doceis gatos em leões ferozes.  Dai perde-se a medida das palavras, a percepção dos sentimentos do outro e inibição, tal qual uma droga, isto leva o individuo por vezes a atitudes inconsequentes. A sensação de poder, pois a impessoalidade do ambiente virtual produz no individuo uma sensação de impunidade, de que ele pode passar por cima de limites éticos e morais, revela e acentua as piores facetas do individuo. Como disse Abraham Lincoln:

"...mas se quiser por a prova o caráter de um homem, dê-lhe poder"

Para finalizar gostaria de citar Dado Moura, que em seu artigo intitulado "Encontros Virtuais"[4] faz uma analogia interessante:

"Estamos também no ambiente virtual quando falamos ao telefone e tampouco deixamos de expressar nossos verdadeiros sentimentos por aquele (a) que está do outro lado da linha. Se, é verdadeiro que nossos sentimentos independem dos aspectos físicos para se estabelecer, assim, acredito que a tecnologia nos oferece a oportunidade de, através de convites, trazer nossos amigos, que até então eram “virtuais”, para viver um encontro real"


REFERÊNCIAS:

[1]SOUZA, Geraldo Lopes de.  Resumo Histórico e Conceituação. Revista Sul Americana de educação. Revista Produção on-line. [on-line]. n. 1. Brasília:  Abr. 2004. Disponível em: <http://periodicos.unb.br/index.php/resafe/article/view/5396/4495>
[2]SUART JÚNIOR, José Bento. A Dialética Do Conhecimento Científico, A Prática E A Experimentação: Uma Análise Do Ideário De Licenciandos E Sua Relação Com A Epistemologia Da Ciência Moderna. Bauru: UNESP, 2010.
[3]SPADARO, Antonio. Encontro para Comunicadores - Cristianismo em Tempo de Rede. Palestra realizada na Canção Nova em 31. Jul. 2014.
[4]MOURA, Dado. Encontros Virtuais. Lorena: [s.n.], 14. Abr. 2007. Disponível: <http://meurelacionamento.net/encontros-virtuais/>


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