quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cultura do Ter e Não Ser


O problema da cultura das aparências


Em uma realidade na qual a felicidade dos seres humanos é ditada pelos bens que são capazes de adquirir, é presumível pensar que esta filosofia de vida oculte um vazio muito maior, um mal que permeia a alma do homem moderno.

O ideal de ter e não ser esta intimamente ligado a cultura que segrega o real e o virtual, o desejar e o conquistar, numa realidade em que as pessoas vivem a ilusão de que podem ter duas vidas, sendo uma destas construída pelo que são capazes de adquirir. Entenda-se virtual não apenas como a internet, mas sim como uma miragem construída com mentiras, camadas sobrepostas a realidade que permitem ao individuo esconder-se de si mesmo.

Para que possamos discutir este assunto é importante compreender que esta duas palavras existentes na língua portuguesa possuem sentidos bastante distintos. O verbo "ter", segundo Medeiros[1], vem do latim tenere que significa "estar na posse ou gozo de; desfrutar, gozar, possuir, usufruir", já ser vem do latim sedere, que por sua vez significa  "possuir as características ou qualidades, modo de existir". Percebe-se a nítida diferença entre ambos, o primeiro refere-se ao transitório e efêmero ato do possuir enquanto o segundo refere-se a propriedade num sentido na qual o indivíduo passa a alterar seu próprio eu.


O problema do ter e não ser reside fundamentalmente naquilo que ele oculta, uma deficiência: a desnutrição da vontade. Esta deficiência enraíza-se no medo de se fazer autor de suas próprias atitudes, assumindo de forma genuína as rédeas e sobretudo as responsabilidades de seu arbítrio. Quando nos escondemos na necessidade do ostentar e não do viver para mostrar quem somos, demonstramos não ter em nós mesmos a propriedade de nossos valores e pensamentos. Neste ponto chegamos ao subsídio fertilizador desta enfermidade: o mal hábito de assumir pensamentos, ideias e valores que não foram concebidos e provados em nossa vivência. Esse tipo de pratica vai na contramão da própria vida, pois conforme Nietzsche[2] expressa: "Vida é vontade de poder", logo o próprio viver se exprime pela vontade, pela escolha e pela ação. Quando o indivíduo se faz senhor sobre suas ideias e ações, exerce a sua vontade, cria então sentido e razão em seus valores ou se vê obrigado a a desconstruí-los e repensa-los.

Os principais efeitos colateiras degenerativos desta escolha são a atrofia da razão, a propensão a engajar-se por conteúdos massificados sem qualquer posicionamento crítico e principalmente a absorção e engajamento com valores e ideias que não condizem com o que a pessoa realmente acredita. Este ultimo, os valores em que se acredita, que deveriam ser fruto da vivência como elemento homologador, perdem-se num verdadeiro nimbo de torpor crítico e a perspectiva se torna moldada por outros. 

Criar em nós o senhorio de nossas ações, assumindo o bíblico "livre-arbítrio" em atos de consciência, é o único antídoto e antibiótico contra os malefícios causados pela cultura midiática que dia após dia incentiva pessoas a parecer mais do que verdadeiramente ser. Esta mudança salutar é benéfica mas não necessariamente confortável, seu efeitos são a longo prazo. Tadeu Dantas[3] classifica aqueles que assumem esta postura como "produtores", segundo ele:

"Ser produtor é viver o cotidiano sem holofotes, sem glamour, trabalhando em ideias, soluções ou simplesmente vivendo de maneira consciente do que se faz. É estar desperto e perceber que aquilo que dizem é muito diferente do que fazem, que repetir algo simplesmente porque disseram não é certo e encontrar a verdade dá trabalho e nem sempre é possível. É uma postura ativa perante ao mundo"

É preciso por vezes desconstruir ideias, conceitos e valores para que exista espaço para mudança, entretanto isso só ocorre quando nos tornamos autores de nossas vidas, um atitude que transforma não só nossos pensamentos, mas principalmente nossas ações e consequentemente nosso viver.

REFERÊNCIAS:


[1] MEDEIROS, Pedro Paulo Da SilvaDicionário De Palavras E Expressões Em Latim. [s.l]: Clube dos Autores, 2015.
[2] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Vontade de Poder. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
[3] DANTAS, Tadeu. Show, falatório e respostas prontas: uma geração de consumidores. Cruzeiro: [s.n.], 14. Dez. 2015. Disponível: <https://tadeudantas.wordpress.com/2015/12/14/show-falatorio-e-respostas-prontas-uma-geracao-de-consumidores/>

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